ENCICLOPÉDIA DO CAVALO

APRENDA A TROTAR

 

     Você é dono de um cavalo que não marcha, mas trota: quantas vezes em seus passeios você ouviu dizer que é impossível montar num cavalo trotão? Você fica sacudindo em cima da sela deste cavalo, achando que logo, logo seu coração vai sair pela boca? Este cavalo por outro lado, é lindo e tem um ótimo temperamento, e você não que se separar dele - e agora??? Não desanime, a solução é mais fácil do que você pensa.

Trote elevado, eu?

     Antes de mais nada, vamos acabar com alguns mal-entendidos. Ninguém duvida que um cavalo de marcha é mais confortável para passeios e cavalgadas longas, especialmente se o seu cavaleiro tiver pouca ou nenhuma experiência na sela. Daí a dizer - como às vezes ouvimos - que é impossível passar algumas horas ou o dia todo montado num cavalo de trote há uma diferença. Na maior parte do mundo, os cavalos de trabalho também são de trote: o Crioulo do Gaúcho, o quarto-de-milha do cow-boy, todos os pôneis de lida da Ásia e da Europa Oriental. E o que dizer dos enduristas, que chegam a passar 12 à 14 horas seguidas na sela, boa parte delas a trote?
     Alguns cavaleiros de lazer podem até preferir cavalos de marcha, mas o destino faz com que acabem sendo donos de um cavalo de trote: uma compra barata, presente de um amigo, o filho que se apaixonou por determinado cavalo...e agora? Por que não aprender a fazer o trote elevado? Já ouço os gritos do tipo - é muito difícil, ou é coisa para mauricinhos que faziam hipismo. Então vamos acabar com mais estes mitos:

- Cawboy também faz trote elevado, como qualquer treinador de cavalos western pode atestar.

- O trote elevado é muito fácil, podendo ser aprendido por qualquer pessoa com um mínimo de prática.

      Então, vamos experimentar? Tenho certeza de que todos aqueles que até então sofriam socando na sela (e não se esqueçam de que o respectivo cavalo sofre também, tomando pancada no rim e tronco na boca) vão chegar a uma conclusão do tipo - isso é tão fácil e gostoso, por que ninguém me ensinou antes?

Por que o trote soca?

 

     O trote é uma andadura diagonal, em que as quatro pernas do cavalo se movem em pares, um anterior com o posterior oposto. Ou seja, o anterior esquerdo avança simultaneamente com o posterior direito e vice-versa. No intervalo entre estas duas fases, há um pequeno instante em que o animal fica com as quatro perna no ar, e quando ele volta a tocar no solo é que o cavaleiro tem a sensação de impacto sobre a sela. (Já a marcha trotada tem um momento de apoio entre os pares diagonais; por isso, é menos áspera. A marcha tríplice é ainda mais suave, pois nela sempre há três membros em contato com o solo.)
     Há três maneiras fundamentais do cavaleiro montar a trote: trote sentado, trote elevado e trote em suspensão. No trote sentado, ele fica simplesmente sentado, absorvendo impacto do movimento através  do relaxamento da coluna e assento.
      O trote sentado aparentemente é o mais fácil, mas na realidade é dominado apenas após um longo período de aprendizado do cavaleiro - como pode atestar qualquer principiante que já tenha tentado ficar sentado em cima de um cavalo trotão! Ele também é mais cansativo para o conjunto, especialmente num trote mais alongado (rápido), ou durante cavalgadas demoradas.
     No trote em suspensão, o cavaleiro usa as forças das pernas, e eventualmente a ajuda das mão se apoiando no pescoço do cavalo, para retirar o assento da sela, assim ficando acima do movimento do cavalo (tal como o jóquei no cavalo de corrida). É um bom recurso para descansar o cavalo, especialmente quando enfrentando subidas e descidas, mas é muito cansativo para o cavaleiro quando empregado por longos períodos.
     A atitude preferida pela maioria dos cavaleiros é mesmo o trote elevado, onde tanto cavaleiro como cavalo cansam o mínimo possível, e que pode ser empregado por longo tempo sem causar desgaste, mesmo que o trote fique mais rápido.Ele consiste em levantar da e sentar novamente no mesmo ritmo do trote do cavalo, assim escapando do impacto no chão. Assim, se o cavalo trota " um - dois, um - dois, um - dois ", o cavaleiro estará, na mesma velocidade, executando "sobe-desce, sobe-desce, sobe-desce..." O segredo está, apenas, em conseguir acompanhar o ritmo do cavalo, mantendo o próprio corpo numa posição equilibrada, e com o mínimo possível de movimento.

 

Primeira fase: Achando o equilíbrio

     Para a nossa aula fotográfica usamos uma sela australiana, para demonstrar que o trote elevado é possível em qualquer cavalo de trote, usando todos os tipos de equipamento.

FOTO 1 - Posição Correta do Cavaleiro


     Em todas as situações a cavalo, o cavaleiro (ou amazona) deve ficar com o corpo alinhado na vertical, não como se estivesse sentado, mas como se estivesse em pé no chão, com as pernas ligeiramente afastadas. Repare que os ombros, quadril e calcanhares estão alinhados de maneira perpendicular ao solo. Ela não está pendurada ou caída sobre os cavalos, porém centrada em seu próprio equilíbrio.

 

FOTO 2 - Posição Correta das Mãos

 

     Com todos os tipos de embocadura, é correto que haja uma linha reta entre os cotovelo, mãos e boca do cavalo, com as mãos uns dez centímetros à frente do cepilho da sela e uns cinco centímetros acima da crina. Um erro muito comum dos principiantes durante o trote elevado é que as mãos abandonem esta posição, acompanhado a subida e descida do corpo e assim dando trancos na boca do cavalo.

FOTO 03 e 04 - Encontrando o Equilíbrio em pé nos estribos

 

      Ainda com o cavalo parado, a partir da posição básica da foto 01, o cavaleiro deve ficar em pé, levantando-se com as pernas, sem cair com o tronco para a frente. Nesta fase, é bom levantar o maximo possível (esticando as pernas ao máximo), como exercício de postura e de equilíbrio. No principio (foto 3), é permitido segurar um tufo de crina com uma das mãos, para encontrar o equilíbrio, sempre sem se apoiar nas rédeas. As rédeas servem para dar a direção do movimento, nunca para o cavaleiro se equilibrar nelas. Na foto 4, é possível ver que Eva está bem equilibrada sobre os estribos, com os calcanhares abaixados, o corpo reto e as rédeas soltas.

 

FOTOS 5 e 6

 

     Enquanto o cavalo continua parado, passe agora à movimentação do trote elevado propriamente dita, passando do "sentado" ao "em pé" num ritmo constante, que cada vez mais se aproxime da velocidade do cavalo a trote. Ajuda contar em voz alta: um - dois, sobe - desce...

     Os erros mais comuns nesta fase são levantar demais da sela, e com isso cair sentado muito bruscamente. Enquanto no exercício anterior (foto 4) as pernas ficavam totalmente esticadas, agora elas devem permanecer levemente flexionadas, levantando o assento da sela no máximo quatro ou cinco centímetros. Ao sentar, procure voltar à sela suavemente, como se houvesse pedrinhas pontudas na sela. O correto é não ouvir o ruído do assento voltando à sela. Sempre continue pensando em manter as mãos imóveis e as pernas retas, perpendiculares ao chão.

 

Segunda Fase : Colocando a coisa em movimento

FOTO 7 e 8: Trote elevado com o apoio das mãos.

 

     Quando já estiver conseguindo fazer o exercício anterior no mesmo ritmo do cavalo trotando, tanto no animal parado como a passo, experimente fazê-lo no trote. No começo, seu ritmo provavelmente não estará harmonizando com o do cavalo - a maioria das pessoas é lenta, ficando para trás do movimento do cavalo. Não faz mal, persista, concentrando-se no ruído das patas sobre o solo, e procurando adaptar a ele sua contagem de um - dois, sobe - desce...Sempre que você ficar muito cansado ou desequilibrado, volte ao passo, descanse, e se reorganize antes de recomeçar. Logo você estará conseguindo trotar corretamente durante alguns segundos, e de repente, a coisa se encaixará: quando ficar fácil e confortável, você saberá que está começando a fazer o trote elevado corretamente. É muito importante não perder o equilíbrio, nem interferir a boca do cavalo; um recurso para aprender desde o começo a manter as mãos quietas é um recurso para aprender desde o começo a manter as mãos quietas é apoiá-las na cernelha do cavalo, como é visto nestas fotos.

FOTO 09: TROTE LIVRE

 

Após algum tempo de prática, você estará fazendo o trote elevado corretamente, desta maneira:

-Pisando fundo nos estribos, as pernas empurrando o corpo para cima
-Mãos "flutuando" imóveis junto à cernelha do cavalo
-Levantando da sela apenas alguns centímetros
-Tronco sempre na posição vertical
-Olhando para frente, na direção do movimento

ALGUNS ERROS COMUNS

FOTO 10: Levantando demais a sela

 

     Aqui, mostramos o que acontece quando o cavaleiro se atira para fora da sela: as mãos sobem junto, dando um tranco na cabeça do cavalo, perturbando o ritmo dele - repare como a amplitude do movimento está menor, em relação à foto anterior. Também quando voltar à sela, o cavaleiro estará causando um baque nas costas do cavalo, o que é incomodo e a longo prazo cansativo e doloroso para ambos. Lembre-se de levantar sempre o mínimo possível da sela, e sentar com a máxima suavidade possível.

FOTO 11: Mãos  muito baixas, dedos abertos

 

     As mãos empunhando as rédeas devem estar sempre fechadas, com as unhas encostando ligeiramente na palma da mão. Dedos abertos, como aqui, não dão uma condução firme. Repare também na rédea e braço formando uma linha quebrada para baixo (compare com a foto 2), interferindo com movimento natural do cavalo. Além disso, a amazona está olhando para baixo, e entortando a cabeça para dentro, o que interfere no equilíbrio de todo o seu corpo - compare a foto 9.

FOTO 12: CORPO CAINDO PARA FRENTE

 

     Aqui, demonstramos muito bem o que acontece quando um principiante se desequilibra, caindo para frente: o cavalo cada vez fica mais veloz, aumentando a insegurança do cavaleiro, que cai ainda mais para frente, criando um círculo vicioso que muitas vezes termina com um tombo. Compare com o alinhamento do corpo da foto 01. Quando alguém tem tendência a montar assim, a cura é simples; ombros para trás, pernas para a frente, até mesmo exagerando, se necessário (compare também com a foto 13); 90% das quedas do cavalo de principiante acontecem desta maneira, pendendo para a frente até cair por cima do pescoço.

FOTO 13: Corpo caindo para trás

 

     Esta situação é a inversa da anterior, e embora seja mais segura para o cavaleiro, não é nada agradável para o cavalo - repare como a amplitude dos passos dele diminui, e como dá para ver que é preciso tocá-lo com muito mais força para que saia do lugar. Veja também como os braços da amazona estão rígidos, e as mãos altas: todo o corpo dela está se opondo ao movimento do cavalo. Se este for o seu caso, pense em ficar apoiado nos próprios pés, como se não houvesse cavalo: ombros, quadril e calcanhares alinhados.

E finalizando

     O trote elevado é um pouco como dançar: dois parceiros procurando se deslocar harmonicamente num ritmo em comum. E como na dança, o entrosamento do conjunto pode demorar um pouco a chegar, mas uma vez estabelecido, passa a ser uma coisa fácil e automática: você não precisa pensar, apenas seguir. Nada que um pouco de prática não resolva! Por isso, não desanime com alguma dificuldade inicial.

Matéria gentilmente cedida por:
Claudia Leschonski
 

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