ENCICLOPÉDIA DO CAVALO

EXPERIÊNCIA, PERSISTÊNCIA E FÉ

Para o tratamento de casos crônicos e complicados

 

     O argumento é uma das afecções que mais impressiona pelo grau de sofrimento constante demonstrado pelo animal. A vivência aqui no hospital tem nos ensinado que mesmo os casos mais graves, tem uma melhora com os cuidados intensivos que conseguimos proporcionar.
     A pergunta que normalmente nos fazem é se usamos algum método novo, moderno e misterioso. A resposta é a usual em tudo o que fazemos: - Não! O que fazemos é o que se encontra em toda literatura consagrada desde o trabalho pioneiro no Brasil de René Straunard, professor da faculdade de medicina veterinária e zootecnica da Universidade de São Paulo em 1957 ( Revista FMVZ - USO, 81 ) até as recomendações atuais dos principais podologistas internacionais.
     O tratamento do aguamento crônico consiste na manutenção e acompanhamento das funções vitais com tratamento de seu porte e nutrição apropriada para que o animal possa ter o mínimo de conforto enquanto a própria fisiologia se encarrega de resolver o problema. Assim tão simples? Claro que é necessário um acompanhamento dos cortes feito por um veterinário. o Uso de palmilhas, botas ortopédicas e ferraduras que facilitem o processo de cicatrização. Além disso, promover a higiene das regiões afetadas, o que muitas vezes não se restringe aos cascos uma vez que por ficarem deitados muito tempo, faz com que esses animais desenvolvam feridas chamadas, ulceras de decúbito. A monitorização dos sistemas respiratórios e cardiovascular devem constantes e freqüentes, uma vez que a pouca mobilidade destes animais favorece o acometimento de pleuropneumonias, endocardites doenças que devem ser tratadas rapidamente.
     Nestes anos de acompanhamento, sempre vem a lembrança de um comentário feito por um velho administrador de fazenda de Castilho, o Sr. Nogueira, um dos homens mais sábios, que esta vida me deu o privilégio de conhecer. Diante de um cavalo aguado e sofredor que tratávamos conjuntamente, ele comentou:  "É ... é  difícil  suportar  o  sofrimento  do  animal.  "Ao  que respondi na minha inexperiência: "Estamos tentando tudo que podemos e não conseguimos minorar o sofrimento do animal." E respondeu:   "Não falo do sofrimento do cavalo, mas sim do seu, Doutor.." ao me olhar inquisitivo ele continuou: "Parece que toda vontade sua de vir à fazenda fica prejudicada quando o Sr. se lembra que vai ter que se defrontar com este bicho sofrendo, fico até com pena quando percebo que o Sr. se dirigi constrangido para as cocheiras esperando que desta vez ele vai estar melhor, ou até mesmo curado. E como o Sr. faz exame clínico rapidamente e tenta sair logo de perto do sofrimento. "Olhei para este amigo que tentava dizer, com muito respeito, uma lição muito importante e respondi: "O Senhor tem razão, vamos voltar para perto do nosso paciente e desta vez vamos dividir com ele um pouco da carga, vamos compartilhar o sofrimento e verificar se não deixamos nada para trás." Ao que o nosso amigo respondeu e com uma frase exultante: "Agora a coisa vai!"
     E porque desta lembrança agora? Em primeiro lugar porque é bom lembrar dos amigos e de tudo que somaram e enriqueceram a nossa existência e em segundo lugar porque a principal mensagem quando estamos falando de doenças crônicas e de difícil solução como o aguamento crônico é que é preciso fé e capacidade de luta porque as coisas não se resolve, de uma hora para outra. Parece simples, porém de rara aplicação nestes dias de consumismo e pressa. As vezes parece que os seres vivos podem ser descartáveis. Definitivamente eles não são.

 

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